Luci Collin é ficcionista, poeta, educadora e tradutora. Tem mais de vinte livros publicados entre os quais Querer falar (Finalista do Prêmio Oceanos 2015), A palavra algo (Prêmio Jabuti, poesia, 2017), Rosa que está (Finalista do Prêmio Jabuti 2020) e Dedos impermitidos (contos, 2021, Prêmio Clarice Lispector – Biblioteca Nacional). Participou de diversas antologias nacionais e internacionais (nos EUA, Alemanha, França, Bélgica, Uruguai, Argentina, Peru e México). Na USP concluiu o Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês e dois estágios pós-doutorais em literatura irlandesa. É professora aposentada do Curso de Letras da UFPR e atua na pós-graduação em Tradução Profissional da PUC-PR. Já traduziu grandes autores como Henry James, Virginia Woolf, Gertrude Stein, E. E. Cummings, Gary Snyder e Seamus Heaney, entre muitos outros. Ocupa a Cadeira 32 na Academia Paranaense de Letras.
Os dois primeiros poemas da seleção abaixo são do livro Olho reavido (Iluminuras, 2022) e os dois último são inéditos.
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Plano cartesiano
amar sem ter
é paradoxo de tempo e espaço
é sismo sem magnitude
amar sem ver
amar sem nunca saber
é o oco do solilóquio
é o virtuosismo do mormaço
amar sem haver, sem nem refúgio nem regaço
o solipsismo do osso
o insosso do avatar
amar sem contemplar
amar sem abraço
é o aço do estoicismo
é esboço de amar, ameaço
amar sem abranger
é a armadilha da troça
bagaço de amar, sobrosso
amar sem ter vossa mercê
haver-se assim não se possa
amar sem ser
*
Passe
então decidiu ser sem relógios
e agora dorme com mouros e papalvos
e ouve trombetas e se quiser contrai escarlatina
e alimenta pombos nas fotografias dos turistas
e não depende de ponteiros
nem de aguaceiro ou de fresca
e tanto pode ser a velha renga a segurar sacolinhas
quanto o guarda noturno que espia vergonhas nuas
quanto o caracol abolido por falta de estiga
quanto as mãos instruídas que adivinham
cadências vulcânicas e gritos de anacronia
quanto a jovem crua e negligente
com aquilo que lhe escorre pelas coxas
quanto o vilão com cara de flandres
que apodrece em circunstância de bruma
quanto a menina antiquíssima que se fia
em angras e vaus e reticências
quanto o cardeal a abençoar sopa nenhuma
quanto a estátua movediça que cala e consente
quanto o helianto que acompanha a lua
quanto a boca que se esqueceu como é
que se mastiga
*
Repto
tente-me
porque é azul demais e
ofego
rasgue-me
porque os pássaros sabem e
itinero
afine-me
porque é louco o gosto e
aparvalho
ria-me
porque é a luz que abre e
retino
brilhe-me
porque a boca é nunca e
retumbo
finja-me
porque o sangue exala e
rumoro
cuspa-me
porque a noite é presto e
sincopo
nunque-me
porque o resto é sina e
bem-quero
*
História natural
Manhã inteira revisando um livro mergulhada
na nossa língua portuguesa e as regras que prevalecem
café lentamente e olhar pela janela olhando olhando
bem longe muito longe mesmo a serra do mar — lá está
encoberta (lá está pra sempre neste minuto)
olhando a árvore de nome comprido: sibipiruna do qual
sempre me esqueço está depenada pelo inverno
mas a canjarana persiste mas a canafístula perdura mas
o araribá resiste às piores geadas e o freixo-comum
e a lavanda floresce e suporta a escassez suporta as
temperaturas mais frias porque como os pássaros
têm estratégias têm corportamentos vários por exemplo
hibernação ou a inquietude migratória tudo é estratégia
a minha: o mergulho na revisão da língua do livro e
às vezes olhar pela janela à espera de quando
eu mesma puder voltar.